Elaboração Orçamentária: Por Que a Maioria Começa Errado

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Renan Lombardi

Por Redação PRAESKIUS

01 de jun. de 20266 min
Peças de jenga enfileiradas, caindo em efeito dominó, mas paradas por uma mão para não interferir nas que se mantém em pé. Logo da Praeskius sobreposto na imagem.

Nos últimos meses, muitos relatórios e pesquisas globais passaram a mostrar como os times de FP&A mais maduros do mundo estruturam o ciclo orçamentário. Relatórios do Deloitte, FP&A Trends, pesquisas com CFOs de empresas globais. O que me surpreendeu não foi o que eles fazem diferente. Foi onde eles começam diferente.

A maioria dos processos orçamentários que conheço no Brasil começa pelo mesmo lugar: o resultado do ano passado. Aplica uma taxa de crescimento, distribui por área, ajusta onde a diretoria pede e entrega em dezembro. O processo fecha. Os números batem. E em março, quando o mercado faz algo que ninguém planejou, o time financeiro passa semanas refazendo um modelo que levou três meses para ser construído.

Não é um problema de execução, mas de arquitetura. E ele começa na primeira decisão do ciclo.

O ponto de partida que compromete tudo

Um orçamento construído sobre o histórico financeiro parte do pressuposto de que o futuro vai se comportar como o passado com um percentual de crescimento aplicado. Essa lógica funciona em ambientes estáveis. A questão é que 2026 não é um ambiente estável, e o ciclo orçamentário que começa agora vai atravessar doze meses onde variáveis relevantes vão mudar em ritmos que nenhum percentual anual consegue capturar.

A PPN Solutions, em análise sobre as principais tendências de FP&A em 2026, documenta que orçamentos anuais estáticos são estruturalmente desalinhados com ambientes de negócios que mudam em ciclos mais curtos do que o próprio processo de aprovação orçamentária. O orçamento fica obsoleto antes de ser aprovado. Não por descuido. Por arquitetura.

O que o time financeiro faz durante os três meses de elaboração

Elaborar orçamento deveria significar analisar premissas, modelar cenários e tomar decisões sobre onde alocar recursos. Na prática, a maior parte do tempo vai para outro lugar.

Um levantamento global da Datarails com profissionais de FP&A mostrou que 96% dos times ainda usam planilha como ferramenta central de planejamento. Isso não é um problema em si. A dificuldade está no que o uso de planilha como sistema central de consolidação exige em termos de esforço manual. Cada área entrega seus números num formato levemente diferente. O financeiro consolida manualmente, confere se os totais batem, reconcilia o que não fecha e começa de novo quando alguma área revisa os dados.

O FP&A Trends Survey, um dos levantamentos anuais mais abrangentes sobre a área, aponta que o tempo gasto verificando a confiabilidade do dado antes de qualquer análise começar é um dos maiores gargalos identificados em times financeiros globalmente. O trabalho que deveria ser análise vira checagem. O tempo que deveria ir para decisão vai para consolidação.

O problema das versões

Durante os três meses de elaboração orçamentária, quantas versões do arquivo existem simultaneamente?

Existe a versão que a área comercial enviou na semana passada. A versão que o financeiro ajustou depois da reunião com a diretoria. A versão que alguém salvou com um nome levemente diferente para não sobrescrever. E a versão que o gestor de uma área está usando como referência sem saber que houve atualizações depois.

O European Spreadsheet Risks Interest Group, que estuda incidentes com planilhas sistematicamente, estima que mais de 90% das planilhas em uso corporativo contêm erros. Em processos colaborativos onde múltiplas pessoas editam arquivos relacionados sem controle de versão estruturado, a probabilidade de inconsistência entre o que diferentes partes do processo estão usando como referência é alta o suficiente para comprometer a confiabilidade do número final.

O orçamento que chega para aprovação em dezembro carrega a soma dessas inconsistências. E a maioria dos times sabe disso quando apresenta.

O número aprovado que o time sabe que tem problemas

Existe uma situação que raramente é nomeada mas que praticamente todo profissional de FP&A já viveu. O orçamento está pronto. As premissas foram discutidas. O processo foi seguido. E o time financeiro sabe que algumas daquelas premissas já estão desatualizadas, que um ou dois números foram pressionados para cima durante as negociações internas, e que a versão que vai para aprovação não é exatamente o que o modelo dizia antes das rodadas de revisão.

O orçamento é aprovado assim mesmo. Porque o processo chegou ao fim. Porque a pressão para entregar é maior do que a disposição para reabrir o que já foi fechado. E porque todos esperam que o primeiro trimestre revele o que o modelo não conseguiu capturar.

Em março, o modelo revela.

O retrabalho que ninguém planeja mas todo mundo já sabe que vem

A revisão orçamentária do primeiro trimestre não é uma surpresa para ninguém. É uma etapa esperada do ciclo, tratada como inevitável, que consome semanas do time financeiro em retrabalho sobre um modelo que levou meses para ser construído.

O que me chama atenção nos relatórios globais é que esse padrão não é exclusivo do Brasil e não é consequência de profissionais menos qualificados. É a consequência natural de um processo que começa pelo lugar errado e chega ao final sem a estrutura necessária para se atualizar quando o ambiente muda.

O Deloitte 2026 Finance Trends Report identificou que construir capacidades avançadas de planejamento de cenários é a ação mais prioritária que líderes financeiros globais estão tomando agora. Não como resposta à tecnologia disponível. Como resposta ao reconhecimento de que o modelo orçamentário tradicional não foi construído para o ambiente em que as empresas estão operando.

O ponto de partida do problema está claro. O que ainda não está claro para a maioria dos times é exatamente onde o processo precisa mudar para que o resultado seja diferente.

Existe uma pergunta que ajuda a localizar isso: quando uma premissa relevante muda no meio do ano, quanto tempo o seu time leva para saber o impacto no resultado anual?

A resposta revela mais sobre a maturidade do processo orçamentário do que qualquer auditoria de planilha.

Referências

PPN Solutions, análise sobre limitações do orçamento anual estático em ambientes de alta variação em 2026: ppnsolutions.com — FP&A Trends to Look Out for in 2026

Datarails, levantamento global sobre uso de planilhas em times de FP&A (96% para planejamento): datarails.com — FP&A Trends and Future

FP&A Trends Survey, dados sobre tempo gasto em verificação de dados versus análise estratégica: fpa-trends.com — Top Trends Shaping FP&A in 2025 and Beyond

European Spreadsheet Risks Interest Group, estimativa de erros em planilhas corporativas: eusprig.org

Deloitte 2026 Finance Trends Report, scenario planning como prioridade central de líderes financeiros: deloitte.com

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