Nos últimos meses, muitos relatórios e pesquisas globais passaram a mostrar como os times de FP&A mais maduros do mundo estruturam o ciclo orçamentário. Relatórios do Deloitte, FP&A Trends, pesquisas com CFOs de empresas globais. O que me surpreendeu não foi o que eles fazem diferente. Foi onde eles começam diferente.
A maioria dos processos orçamentários que conheço no Brasil começa pelo mesmo lugar: o resultado do ano passado. Aplica uma taxa de crescimento, distribui por área, ajusta onde a diretoria pede e entrega em dezembro. O processo fecha. Os números batem. E em março, quando o mercado faz algo que ninguém planejou, o time financeiro passa semanas refazendo um modelo que levou três meses para ser construído.
Não é um problema de execução, mas de arquitetura. E ele começa na primeira decisão do ciclo.
O ponto de partida que compromete tudo
Um orçamento construído sobre o histórico financeiro parte do pressuposto de que o futuro vai se comportar como o passado com um percentual de crescimento aplicado. Essa lógica funciona em ambientes estáveis. A questão é que 2026 não é um ambiente estável, e o ciclo orçamentário que começa agora vai atravessar doze meses onde variáveis relevantes vão mudar em ritmos que nenhum percentual anual consegue capturar.
A PPN Solutions, em análise sobre as principais tendências de FP&A em 2026, documenta que orçamentos anuais estáticos são estruturalmente desalinhados com ambientes de negócios que mudam em ciclos mais curtos do que o próprio processo de aprovação orçamentária. O orçamento fica obsoleto antes de ser aprovado. Não por descuido. Por arquitetura.
O que o time financeiro faz durante os três meses de elaboração
Elaborar orçamento deveria significar analisar premissas, modelar cenários e tomar decisões sobre onde alocar recursos. Na prática, a maior parte do tempo vai para outro lugar.
Um levantamento global da Datarails com profissionais de FP&A mostrou que 96% dos times ainda usam planilha como ferramenta central de planejamento. Isso não é um problema em si. A dificuldade está no que o uso de planilha como sistema central de consolidação exige em termos de esforço manual. Cada área entrega seus números num formato levemente diferente. O financeiro consolida manualmente, confere se os totais batem, reconcilia o que não fecha e começa de novo quando alguma área revisa os dados.
O FP&A Trends Survey, um dos levantamentos anuais mais abrangentes sobre a área, aponta que o tempo gasto verificando a confiabilidade do dado antes de qualquer análise começar é um dos maiores gargalos identificados em times financeiros globalmente. O trabalho que deveria ser análise vira checagem. O tempo que deveria ir para decisão vai para consolidação.
O problema das versões
Durante os três meses de elaboração orçamentária, quantas versões do arquivo existem simultaneamente?
Existe a versão que a área comercial enviou na semana passada. A versão que o financeiro ajustou depois da reunião com a diretoria. A versão que alguém salvou com um nome levemente diferente para não sobrescrever. E a versão que o gestor de uma área está usando como referência sem saber que houve atualizações depois.
O European Spreadsheet Risks Interest Group, que estuda incidentes com planilhas sistematicamente, estima que mais de 90% das planilhas em uso corporativo contêm erros. Em processos colaborativos onde múltiplas pessoas editam arquivos relacionados sem controle de versão estruturado, a probabilidade de inconsistência entre o que diferentes partes do processo estão usando como referência é alta o suficiente para comprometer a confiabilidade do número final.
O orçamento que chega para aprovação em dezembro carrega a soma dessas inconsistências. E a maioria dos times sabe disso quando apresenta.
O número aprovado que o time sabe que tem problemas
Existe uma situação que raramente é nomeada mas que praticamente todo profissional de FP&A já viveu. O orçamento está pronto. As premissas foram discutidas. O processo foi seguido. E o time financeiro sabe que algumas daquelas premissas já estão desatualizadas, que um ou dois números foram pressionados para cima durante as negociações internas, e que a versão que vai para aprovação não é exatamente o que o modelo dizia antes das rodadas de revisão.
O orçamento é aprovado assim mesmo. Porque o processo chegou ao fim. Porque a pressão para entregar é maior do que a disposição para reabrir o que já foi fechado. E porque todos esperam que o primeiro trimestre revele o que o modelo não conseguiu capturar.
Em março, o modelo revela.
O retrabalho que ninguém planeja mas todo mundo já sabe que vem
A revisão orçamentária do primeiro trimestre não é uma surpresa para ninguém. É uma etapa esperada do ciclo, tratada como inevitável, que consome semanas do time financeiro em retrabalho sobre um modelo que levou meses para ser construído.
O que me chama atenção nos relatórios globais é que esse padrão não é exclusivo do Brasil e não é consequência de profissionais menos qualificados. É a consequência natural de um processo que começa pelo lugar errado e chega ao final sem a estrutura necessária para se atualizar quando o ambiente muda.
O Deloitte 2026 Finance Trends Report identificou que construir capacidades avançadas de planejamento de cenários é a ação mais prioritária que líderes financeiros globais estão tomando agora. Não como resposta à tecnologia disponível. Como resposta ao reconhecimento de que o modelo orçamentário tradicional não foi construído para o ambiente em que as empresas estão operando.
O ponto de partida do problema está claro. O que ainda não está claro para a maioria dos times é exatamente onde o processo precisa mudar para que o resultado seja diferente.
Existe uma pergunta que ajuda a localizar isso: quando uma premissa relevante muda no meio do ano, quanto tempo o seu time leva para saber o impacto no resultado anual?
A resposta revela mais sobre a maturidade do processo orçamentário do que qualquer auditoria de planilha.
Referências
PPN Solutions, análise sobre limitações do orçamento anual estático em ambientes de alta variação em 2026: ppnsolutions.com — FP&A Trends to Look Out for in 2026
Datarails, levantamento global sobre uso de planilhas em times de FP&A (96% para planejamento): datarails.com — FP&A Trends and Future
FP&A Trends Survey, dados sobre tempo gasto em verificação de dados versus análise estratégica: fpa-trends.com — Top Trends Shaping FP&A in 2025 and Beyond
European Spreadsheet Risks Interest Group, estimativa de erros em planilhas corporativas: eusprig.org
Deloitte 2026 Finance Trends Report, scenario planning como prioridade central de líderes financeiros: deloitte.com
Conheça nossos produtos
Soluções inteligentes para fortalecer processos financeiros e contábeis.
Ver produtos →Gostou do conteúdo? Compartilhe com sua rede.
Compartilhar no LinkedIn